Por Juliana Bittencourt
1. Introdução
A evolução natural da gestão jurídica nos últimos anos conduziu o setor de uma atuação essencialmente artesanal para um modelo estruturado e orientado por dados, culminando na consolidação do Legal Operations (Legal Ops).
Hoje, o Legal Ops emerge como pilar estratégico capaz de articular pessoas, processos e tecnologia em prol da tomada de decisão e da governança corporativa. Esse avanço não se deve apenas a iniciativas internas, mas também à crescente exigência de clientes e stakeholders por métricas, eficiência e resultados mensuráveis.
2. O Marco dos Estudos de Maturidade
O Relatório Temático #2 da FGV Legal Ops (2025), em diálogo com modelos internacionais como o NRF Maturity Model (2021) e o ALM Model (2022), evidencia que um Legal Ops maduro:
- contribui de forma ativa para o planejamento estratégico da organização;
- atua no gerenciamento de projetos e no controle dos processos implantados;
- define como a tecnologia é absorvida e qual o papel do capital humano na operação jurídica.
Essa consolidação reafirma a noção de que a gestão jurídica deixou de ser um apêndice operacional para tornar-se um eixo central de governança.
3. O Papel Transformador da Demanda Externa
O movimento de profissionalização do Legal Ops não ocorre em um vácuo cultural. A pressão exercida pelos clientes, que demandam relatórios claros sobre impacto, métricas de performance e respostas estratégicas, tem acelerado essa transformação. O jurídico, que por décadas foi visto como centro de custo reativo, passa a ser cobrado como parceiro de negócios.
Nesse sentido, a fala de um representante da AB2L traduz essa mudança de paradigma:
“Estamos mudando isso no Brasil aos poucos: é entender que o departamento jurídico é uma área de negócios dentro da empresa, que dialoga de forma estratégica — e não apenas um centro de custo que só atua quando o problema já aconteceu.”
4. Cultura, Tecnologia e Capital Humano
O avanço do Legal Ops requer mais do que tecnologia de ponta: depende de uma cultura organizacional que favoreça a adesão aos processos, ao monitoramento de resultados e à colaboração interdepartamental. A literatura sobre gestão jurídica é uníssona ao afirmar que software, por si só, não muda cultura.
Assim, o êxito do Legal Ops repousa em três eixos (PORTUGAL, 2025):
- Pessoas, enquanto agentes de engajamento e execução das práticas;
- Processos, que precisam estar mapeados, formalizados e integrados em fluxos consistentes;
- Tecnologia, que deve servir como suporte estrutural e não como fim em si mesma.
5. O Caso da Automação e dos Dashboards Estratégicos
A automação de tarefas repetitivas é apenas a camada inicial dessa transformação. O verdadeiro salto ocorre quando os dados extraídos e organizados em dashboards passam a servir como insumo estratégico para decisões de negócio.
Ferramentas como o software jurídico LegalTracker exemplificam essa mudança: ao automatizar o que antes era manual e estruturar informações em painéis gerenciais, não apenas aumentam a eficiência, mas também entregam ao cliente aquilo que o mercado jurídico contemporâneo mais exige: clareza, mensuração e impacto nos negócios.
6. Conclusão
A consolidação do Legal Ops como pilar estratégico evidencia uma ruptura cultural: de centro de custo para centro de valor. Da culta do improviso (disfarçado de feeling) para a cultura de dados, a cultura data driven. Trata-se de um movimento que não é apenas tecnológico, mas sobretudo cultural e institucional, impulsionado por pressões externas, por novos modelos de maturidade e pela necessidade de alinhar o jurídico à lógica empresarial.
Nesse cenário, o futuro do Legal Ops não será apenas o de apoio às operações jurídicas, mas o de liderança na definição de como o jurídico se insere no planejamento estratégico das organizações.
Referências
– FUNDAÇÃO GETÚLIO VARGAS. Relatório Temático #2: Legal Ops. São Paulo: FGV, 2025.
– NRF. Maturity Model for Legal Operations. Londres: Norton Rose Fulbright, 2021.
– ALM Media. Legal Operations Maturity Model. Nova Iorque: ALM, 2022.
– PORTUGAL, Fabiano Marchiorato. 101 Conselhos Essenciais para Controllers Jurídicos. Curitiba: Editora Life, 2025.
– SCHEIN, Edgar H. Organizational Culture and Leadership. 4. ed. San Francisco: Jossey-Bass, 2010.
– SUSSKIND, Richard. Tomorrow’s Lawyers: An Introduction to Your Future. Oxford: Oxford University Press, 2017.
– AB2L. Depoimento registrado em: FUNDAÇÃO GETÚLIO VARGAS. Relatório Temático #2: Legal Ops. São Paulo: FGV, 2025.

Deixe um comentário