Por Juliana Bittencourt
Introdução
Durante décadas, o jurídico se acostumou a decidir com base em experiência, intuição e memória institucional. O conhecimento jurídico era, em grande medida, exclusivo do advogado. O cliente confiava e aceitava respostas genéricas, prazos extensos e explicações técnicas pouco transparentes.
Hoje, esse cenário se rompeu, e o acesso à informação deixou de ser privilégio. O cliente acompanha o andamento do processo, copia a movimentação, submete o conteúdo a ferramentas de inteligência artificial, cruza com decisões semelhantes e retorna ao advogado com questionamentos cada vez mais profundos. Exige rapidez, clareza e, sobretudo, compreender as repercussões concretas da atuação jurídica, como riscos, cenários, probabilidades e impactos financeiros.
A exigência mudou e o jurídico sente isso diariamente.
A contradição:
queremos mudar, mas ainda não dominamos o básico
Há uma consciência crescente dentro da advocacia de que é preciso mudar. Advogados e gestores sabem que não é mais possível atuar apenas de forma reativa. O problema é que o nosso passado recente, e em muitos casos o presente, escancara uma contradição incômoda: ainda não dominamos nem o básico da gestão jurídica.
Perdem-se prazos ou trabalha-se permanentemente no limite do risco. As informações prestadas aos clientes são, não raras vezes, incompletas ou entregues fora do tempo adequado para a tomada de decisão. A operação jurídica permanece excessivamente dependente de conferências manuais, validações sucessivas e controles paralelos. A carteira, por sua vez, não é enxergada de forma integrada e estratégica, mas fragmentada, processo a processo, de maneira reativa.
Enquanto se fala em gestão orientada a dados, muitos escritórios e departamentos ainda lutam para organizar, compreender e confiar no próprio dado que produzem.
Apesar do discurso de inovação, o trabalho manual ainda é um entrave estrutural à advocacia estratégica. Advogados e equipes de controladoria jurídica continuam dedicando horas à coleta de informações diretamente nos tribunais, à conferência individual de movimentações, ao preenchimento de planilhas e à elaboração de relatórios quase artesanais.
Trata-se de um trabalho lento, repetitivo e oneroso, que consome tempo de profissionais altamente qualificados em atividades de baixo valor estratégico.
Sistemas jurídicos incluíram tecnologia, mas permanecem sem inteligência aplicada
Enquanto o ambiente jurídico passou a exigir velocidade, transparência e precisão, grande parte dos sistemas utilizados pelo setor permanece ancorada em uma lógica ultrapassada. São ferramentas que armazenam informações, mas não as estruturam.
Acumulam dados, mas não entregam inteligência pronta. Embora integrem tecnologia, APIs e múltiplas fontes de informação, não alteraram sua concepção original: continuam operando como repositórios. Capturam dados, replicam movimentações e geram excesso de informação, mas excesso não tratado não se converte em conhecimento.
O resultado é conhecido. O advogado recebe diariamente grandes volumes de movimentações processuais, comunicações do tribunal e registros automáticos, mas sem hierarquização, sem leitura estratégica e sem recorte de relevância. A informação chega bruta, dispersa e indiferenciada.
Pergunta-se: receber todos os dias todas as movimentações de todos os processos (exatamente como disponíveis no Judiciário) pode ser considerado dado tratado? Ou apenas se transfere ao advogado o mesmo esforço que ele já teria ao consultar diretamente os tribunais?
Nesse cenário, os sistemas deixam de ser solução e passam a ser parte do problema. Eles não entregam aquilo que o jurídico efetivamente precisa: informações relevantes sobre a carteira, riscos concretos, exceções operacionais e pontos de atenção estratégica. Limitam-se a “jogar os dados”, reproduzindo digitalmente um modelo que já se mostrou insuficiente.
Controladoria jurídica: execução pura ou condução estratégica da carteira
Nesse contexto, a controladoria pode ter diferentes conotações na operação jurídica.
Quando desprovida de ferramentas adequadas, ela é empurrada para uma atuação essencialmente executória: busca dados, cruza informações manualmente, confere movimentações e monta relatórios. Atua no limite da operação, garantindo que o básico funcione, mas sem espaço para análise mais profunda.
Com instrumentos apropriados, a lógica se transforma. Além de assegurar o funcionamento operacional, a controladoria passa a analisar a carteira de forma integrada, identificar riscos recorrentes, mapear exceções, municiar o jurídico com dados estratégicos e apoiar decisões técnicas mais conscientes, bem como produzir relatórios claros, objetivos e tempestivos para clientes e gestores. A atuação deixa de ser reativa e passa a ser preventiva, analítica e orientada à estratégia, ganhando eficiência e inteligência.
Essa leitura, contudo, não se trata de mera percepção subjetiva da prática profissional. Trata-se de um fenômeno empiricamente identificado pela pesquisa Panorama do Legal Operations no Brasil, conduzida pela FGV Direito SP, que analisou escritórios de advocacia, departamentos jurídicos e organizações que passaram a estruturar sua atuação a partir de dados.
O estudo aponta que a consolidação de uma cultura orientada por dados deixou de ser mera tendência e passou a constituir elemento estruturante da atuação jurídica contemporânea. Entre os fatores destacados estão o uso de indicadores de desempenho, a jurimetria, a interoperabilidade entre sistemas e a aplicação de inteligência de dados à tomada de decisão.
A pesquisa também evidencia que organizações jurídicas que evoluíram nesse aspecto alcançaram ganhos concretos de eficiência, maior previsibilidade de risco, melhoria na comunicação com clientes e fortalecimento da governança jurídica. O ponto central, contudo, não foi a simples adoção de tecnologia, mas a capacidade de estruturar, tratar e integrar dados, transformando informação dispersa em base confiável para decisão.
Esse diagnóstico contribui para compreender por que o modelo tradicional, baseado em controles manuais e leitura fragmentada da carteira, já não responde às exigências atuais do mercado jurídico.
LEGALTRACKER: Da informação bruta à inteligência jurídica aplicada
A partir desse cenário, impõe-se uma distinção fundamental no uso da tecnologia jurídica: informação não é sinônimo de inteligência. Dados processuais existem em abundância no Judiciário. O problema não reside na ausência de informação, mas na forma como ela chega ao advogado: fragmentada, despadronizada, redundante e, muitas vezes, pouco útil para a tomada de decisão.
Transformar informação bruta em inteligência jurídica aplicada exige método.
O LegalTracker foi concebido exatamente com esse propósito, partindo de um princípio claro: zero preenchimento manual. A ferramenta coleta automaticamente os dados diretamente das fontes judiciais, qualifica juridicamente as informações, normaliza, organiza e transforma o dado bruto em inteligência jurídica aplicada.
O LegalTracker entrega visão estratégica. As informações são apresentadas em dashboard consolidado, em uma única tela, permitindo leitura clara da carteira, processos sentenciados e julgados na segunda instância, posição do cliente, valores de causa. Com filtro avançado de controladoria, possibilidade a identificação imediata de riscos, processos parados, fases sensíveis e pontos que demandam atuação prioritária.
O controle de prazos é realizado por meio de painéis de acompanhamento, que aumentam a segurança da operação e reduzem significativamente o risco de perdas.
Relatórios são gerados com apoio de inteligência artificial, permitindo comunicação mais clara, objetiva e compreensível com clientes e gestores, sem a necessidade de coleta manual ou consolidação artesanal de dados.
Permite comunicação mais transparente com o cliente e sustenta decisões técnicas mais conscientes.
A tecnologia, nesse contexto, não substitui o advogado nem a controladoria jurídica. Ela retira dessas funções o peso do trabalho repetitivo, devolvendo tempo e foco para análise, estratégia e tomada de decisão.
A proposta do LegalTracker, portanto, é fortalecer a atuação jurídica por meio de dados estruturados, preservando o advogado no centro da decisão, com maior clareza na gestão da carteira, maior eficiência da controladoria jurídica e maior velocidade na resposta às demandas do cliente.
Sem dados precisos, o jurídico reage.
Com dados estruturados, o jurídico decide.

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