LegalTracker – Blog

Ganhe tempo e precisão em seu escritório com clareza em dados estratégicos, relatórios automatizados e acompanhamento processual inteligente.

O LegalTracker é uma plataforma que automatiza o acompanhamento processual com inteligência artificial, integrando dados dos tribunais, gerando relatórios rápidos e precisos, e oferecendo gestão estratégica e comunicação eficiente para advogados.

Por Juliana Bittencourt

Existe um experimento que se tornou bastante comum desde a popularização da inteligência artificial. Basta criar uma informação falsa, apresentá-la ao sistema e formular uma pergunta sobre ela. Em poucos segundos surge uma resposta completa, coerente, tecnicamente bem escrita e transmitida com absoluta convicção.

O problema é que toda essa construção repousa sobre uma premissa inexistente.

A inteligência artificial, em regra, não questiona a veracidade das informações que recebe. Ela parte do pressuposto de que os dados apresentados representam a realidade e, a partir deles, constrói uma resposta consistente. O resultado pode ser impecável do ponto de vista da linguagem, da estrutura e até da lógica. Ainda assim, permanece comprometido por uma informação de origem que jamais foi validada.

Esse pequeno experimento resume um dos maiores desafios da transformação digital na advocacia. Nunca tivemos tantas ferramentas capazes de produzir respostas com tanta rapidez. O que ainda não aprendemos, na mesma velocidade, foi a construir processos que garantam a confiabilidade dos dados que alimentam essas ferramentas.

Vivemos uma mudança profunda na forma de exercer a advocacia. Eficiência, produtividade, automação e inteligência artificial passaram a ocupar o centro das discussões estratégicas. Clientes esperam respostas cada vez mais rápidas. As equipes trabalham sob pressão constante para produzir mais em menos tempo. A própria percepção sobre o tempo mudou. Hoje, cinco minutos de espera do Uber já parecem excessivos.

A dificuldade surge quando essa urgência encontra informações incompletas, bases desatualizadas ou dados incorretos, e ninguém percebe que as decisões estão sendo construídas sobre fundamentos frágeis.

Ao longo dos últimos anos, participei de auditorias em carteiras processuais que revelaram uma realidade preocupante. Processos simplesmente desapareciam da rotina operacional. Não porque deixaram de existir, mas porque deixaram de ser vistos.

Em um desses trabalhos, foram identificados alvarás judiciais que permaneciam esquecidos havia anos. Nenhuma providência havia sido tomada para o levantamento daqueles valores. Depois do mapeamento e da revisão da carteira, o cliente recuperou mais de R$ 700 mil.

O dinheiro nunca esteve perdido perante o Poder Judiciário.

Estava perdido dentro da própria gestão.

Faltava visibilidade. Faltava organização. Faltavam mecanismos capazes de mostrar que aqueles processos continuavam exigindo providências.

Em outra situação, a análise revelou um problema ainda mais grave. Diversos processos já possuíam sentença favorável, mas o cumprimento da decisão jamais havia sido promovido. Bastava impulsionar a execução para que os créditos fossem recebidos. Em alguns casos, os valores ultrapassavam R$ 1 milhão.

O tempo passou. Os processos permaneceram invisíveis. Em determinadas situações, o direito prescreveu.

Não houve erro técnico na condução processual. Tampouco houve uma decisão jurídica equivocada. O prejuízo decorreu da ausência de gestão, da falta de monitoramento e da inexistência de uma visão integrada da carteira. O monitoramento de processos para advogados e advogadas trouxe volume e não qualidade. E isso vai além de consultar andamento de processo.

Esses exemplos ajudam a compreender por que a discussão sobre inteligência artificial não pode começar pela tecnologia. Ela precisa começar pelos dados.

Imagine que uma base contendo informações incompletas ou equivocadas seja submetida à inteligência artificial. Em poucos segundos ela produzirá relatórios, pareceres, análises e recomendações extremamente convincentes. A velocidade impressiona. A qualidade da redação transmite segurança. O raciocínio parece consistente.

Entretanto, nenhuma dessas características transforma um dado incorreto em informação confiável.

Existe, inclusive, uma percepção que merece atenção. Muitas organizações passaram a acreditar que basta solicitar à inteligência artificial que revise uma base de dados para que ela funcione como uma auditora capaz de encontrar todos os erros existentes. Essa expectativa, embora compreensível, não corresponde ao modo como esses sistemas operam.

Mesmo quando recebe a tarefa de identificar inconsistências, a inteligência artificial não dispõe de um mecanismo infalível de verificação da realidade. Ela pode apontar diversas incoerências, sugerir correções e encontrar padrões relevantes. Ainda assim, poderá deixar passar justamente o erro mais importante ou considerar coerente uma informação equivocada porque ela é compatível com o restante da base analisada.

Isso acontece porque a inteligência artificial não conhece a realidade dos fatos. Ela conhece apenas a realidade representada pelos dados que recebeu.

Na ciência da computação, essa lógica é conhecida há décadas pela expressão Garbage In, Garbage Out (GIGO). Em outras palavras, quando a informação de entrada é deficiente, a tendência é que o resultado reflita essa mesma deficiência, independentemente da sofisticação da tecnologia empregada.

Na advocacia, esse fenômeno assume uma dimensão ainda mais delicada. Existe um componente psicológico que costuma passar despercebido. Quanto mais segura, detalhada e bem fundamentada parece uma resposta produzida pela inteligência artificial, maior tende a ser a confiança depositada nela. Como consequência, diminui a disposição natural de questionar criticamente aquilo que foi apresentado.

O risco, portanto, não está apenas na rapidez com que a tecnologia produz respostas. Está na rapidez com que passamos a confiar nelas.

Esse aspecto merece especial atenção porque a inteligência artificial já deixou de ser uma tendência para se tornar parte da rotina dos escritórios de advocacia. Ela continuará evoluindo e ocupará um espaço cada vez maior nas atividades jurídicas. Resistir a essa transformação não faz sentido. A questão relevante não é decidir se ela deve ou não ser utilizada, mas compreender em quais condições ela efetivamente produz valor.

Valor não nasce da velocidade. Valor nasce da qualidade da informação.

Há pouco tempo, outro trabalho revelou um conjunto de processos cujo custo de litigância superava o potencial benefício econômico. Em vez de manter aquelas demandas seguindo seu curso natural, estruturou-se uma câmara de negociação. Litígios que consumiriam tempo, recursos e energia passaram a ser resolvidos de maneira muito mais eficiente.

Essa decisão surgiu porque alguém analisou a carteira de forma integrada com tecnologia adequada, compreendeu o perfil das demandas, avaliou riscos, estimou custos e percebeu que a estratégia precisava ser alterada.

A inteligência artificial pode contribuir significativamente para esse tipo de análise. Mas ela não substitui o julgamento humano. Ela não pergunta se determinado processo ainda faz sentido econômico. Ela não avalia sozinha o impacto estratégico de uma decisão. Ela trabalha sobre aquilo que lhe foi apresentado.

É justamente por isso que tecnologia e governança da informação caminham juntas. Quanto mais sofisticadas se tornam as ferramentas, maior passa a ser a responsabilidade de garantir a integridade dos dados que as alimentam. Não existe inteligência artificial confiável sustentada por informações desorganizadas, incompletas ou equivocadas.

Os escritórios que mais se destacarão nos próximos anos provavelmente não serão aqueles que simplesmente adotarem mais ferramentas tecnológicas. Serão aqueles que conseguirem estruturar informações confiáveis, estabelecer processos consistentes de gestão e criar uma cultura permanente de validação dos dados que produzem suas decisões.

A experiência demonstra que grandes prejuízos raramente decorrem da falta de velocidade. Na maioria das vezes, eles nascem de informações que deixaram de ser acompanhadas, de processos que se tornaram invisíveis ou de decisões construídas sobre premissas que ninguém se preocupou em confirmar.

Recuperar mais de R$ 700 mil em alvarás esquecidos representa uma conquista importante.

Evitar que um crédito superior a R$ 1 milhão prescreva por ausência de gestão representa algo ainda mais valioso.

A inteligência artificial pode acelerar análises, ampliar a capacidade operacional e transformar profundamente a advocacia. Tudo indica que esse será o caminho natural da profissão nos próximos anos.

Mas nenhuma tecnologia, por mais sofisticada que seja, consegue compensar a ausência de dados íntegros.

Talvez, portanto, a pergunta mais estratégica que um sócio, um gestor jurídico ou um controller deva fazer hoje não seja “como utilizar inteligência artificial no meu escritório?”.

A pergunta realmente importante é outra.

As informações que sustentam minhas decisões são suficientemente confiáveis para que a inteligência artificial trabalhe sobre elas?

Enquanto essa resposta não estiver clara, a velocidade continuará produzindo apenas uma sensação de eficiência.

E nenhuma organização deveria confundir rapidez com segurança.

Juliana Bittencourt é advogada há 24 anos, especialista em Direito Empresarial e Contratual, consultora em Gestão Jurídica, Controladoria Jurídica e Legal Operations, além de Secretária-Geral da Comissão de Inovação e Gestão da OAB/PR. Atuou em projetos de estruturação, automação, implantação e migração de sistemas jurídicos, tendo participado da organização e saneamento de mais de 300 mil processos ao longo de sua trajetória profissional. É fundadora do LegalTracker, plataforma que utiliza automação e inteligência artificial para gerar relatórios em escala, dashboards gerenciais e indicadores de desempenho, permitindo uma gestão jurídica orientada por dados e sem preenchimento manual.

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